Os andrógenos são esteroides que apresentam 19 átomos de carbono e geralmente estão associados às características sexuais masculinas. O principal hormônio androgênico é a Testosterona.

Além disso, a Testosterona é a principal percursora da síntese dos estrógenos, que possuem 18 átomos de carbono. Por meio da ação da enzima aromatase, a testosterona perde um átomo de carbono e se transforma em estrogênio. Dessa forma, existe uma sinergia muito grande entre esses dois hormônios sexuais, que apresentam ações fisiológicas bem distintas, porém complementares.

A biossíntese dos hormônios androgênios nas mulheres ocorre em dois órgãos principais, nos ovários e nas glândulas suprarrenais, com uma participação muito equilibrada de ambos.

No processo de síntese, uma série de enzimas transformam os hormônios primários com menor potencial androgênico em outros hormônios com maior afinidade (potência) com os receptores androgênicos, causando os mais diversos efeitos fisiológicos  nos tecidos periféricos que veremos a seguir.

A figura abaixo ilustra os principais andrógenos produzidos pelas mulheres em ordem decrescente das concentrações séricas e em ordem crescente do potencial de ação androgênica.

A título de curiosidade, o nome estrogênio é derivado do grego “oistros”, que significa literalmente “entusiasmo ou inspiração”, mas figurativamente paixão ou desejo sexual, e o sufixo “-gen”, que significa “produtor de”. Já na palavra androgênio, o termo grego “andro” significa “homem, masculino”.

Tanto os estrógenos quanto os andrógenos possuem efeitos no desenvolvimento e manutenção da estrutura anatômica e funcional de tecidos genitais como útero, vagina e ovários. Nas mulheres, a testosterona exerce uma função essencial em uma infinidade de tecidos e órgãos, com efeitos na reprodução humana, sexualidade, comportamento, humor, massa muscular, massa óssea, sistema cardiovascular, mamas, pele, cabelos e outros.

A seguir, vamos ver alguns dos principais efeitos da testosterona nas mulheres.

 

1. EFEITOS NO DESENVOLVIMENTO FOLICULAR
Os andrógenos são fundamentais para o bom desenvolvimento do folículo nos ovários. Tanto o excesso quanto a deficiência de androgênios estão associados a anormalidades no desenvolvimento folicular. Eles fornecem o substrato (percursores) para a síntese de estrogênio, por meio da conversão da testosterona pela enzima aromatase em estrogênio durante o desenvolvimento folicular. É fundamental que haja um equilíbrio entre os níveis de androgênios e estrogênios dentro do tecido ovariano para a sua boa funcionalidade.

 

2. EFEITOS NA FUNÇÃO SEXUAL

Os andrógenos desempenham um papel importante na função sexual feminina. Vários ensaios clínicos com o uso de testosterona exógena em mulheres peri e pós-menopáusicas mostraram uma influência positiva sobre alguns aspectos da sexualidade feminina, como o número de episódios sexuais satisfatórios e o interesse em sexo. Os hormônios androgênicos estão envolvidos no processo de ativação das vias neurais que causam a excitação sexual feminina. A testosterona, por exemplo, estimula a via dopaminérgica mesolímbica-cortical, relacionada ao desejo, gratificação, recompensa, prazer e reforço.

 

3. EFEITOS NO SISTEMA NERVOSO CENTRAL (SNC)

O SNC apresenta alta densidade de receptores androgênicos. A testosterona exerce papel importante no humor, estado de alerta, sensação de bem-estar, prazer e recompensa, entre outras funções psicológicas. A testosterona pode reduzir a ação do GABA no hipotálamo, modular a neurotransmissão sináptica e alterar a ação da serotonina e da dopamina. Ela também interage com o sistema dopaminérgico mesolímbico cortical, via associada ao prazer, à recompensa e à satisfação. Estudos sugerem que os esteroides androgênicos influenciam a densidade do transportador de dopamina e aumentam a sensibilidade do sistema dopaminérgico cerebral.

 

4. EFEITOS NO HUMOR E NA FUNÇÃO COGNITIVA

Alguns androgênios como a pregnenolona e a dehidroepiandrosterona (DHEA) são considerados neuroesteroides importantes que podem ter ação em várias regiões do SNC. Eles atuam como neuromoduladores, com ação neuroprotetora e neurogênica, regulando neurotransmissão e mielinização. Alguns estudos apontam possíveis benefícios na função cognitiva e no humor com o uso de androgênios em mulheres.

 

5. EFEITOS NA SAÚDE ÓSSEA

Os andrógenos, assim como os estrógenos, apresentam efeito regulador na homeostase esquelética. Baixas concentrações de andrógenos estão associadas a menor densidade mineral óssea (DMO) e aumento no risco de fraturas. Estudos evidenciam efeitos positivos do uso de testosterona na DMO e na redução do risco de fraturas.

 

6. EFEITO ANABÓLICO E ANTI-CATABÓLICO

O modo primário de ação anabólica da testosterona é pela ativação direta do receptor androgênico celular no tecido muscular, aumentando a transcrição de genes relacionados à síntese de proteínas. No músculo esquelético, a testosterona estimula a síntese das proteínas contráteis primárias (actina e miosina), gerando hipertrofia muscular. Também ocorre aumento do armazenamento de glicogênio e da síntese de creatina, as principais reservas energéticas do músculo. O aumento de força permite níveis de treinamento mais elevados, levando a danos musculares maiores e, consequentemente, a um processo mais intenso de reconstrução e remodelamento do tecido muscular. Mecanismos indiretos incluem o aumento da liberação de hormônios locais ou fatores de crescimento, além de inibir a degradação proteica (efeito anticatabólico).

 

7. EFEITOS NA PELE E CABELOS

Os andrógenos podem contribuir para o aumento da oleosidade da pele e para a acne, por induzirem a hipertrofia das glândulas sebáceas e aumento da produção de sebo. Além disso, podem promover alterações do tamanho do folículo capilar, do diâmetro da fibra capilar e da duração da fase anágena. Níveis elevados de andrógenos podem levar a maior crescimento de pelos em regiões mais sensíveis (lábio superior, queixo, esterno médio, abdômen superior, costas e nádegas). Já no couro cabeludo, podem exacerbar a queda de cabelo por eflúvio telógeno e, em mulheres geneticamente suscetíveis, acelerar a alopecia androgênica.

 

8. POSSÍVEIS EFEITOS CARDIOVASCULARES

No princípio, acreditava-se que os andrógenos poderiam ter alguma relação aterogênica devido à correlação inversa entre o nível de testosterona e o nível de HDL, sendo esse um dos fatores que justificariam as taxas mais altas de doenças cardiovasculares em homens. No entanto, revisões sistemáticas de estudos disponíveis não constataram efeitos adversos sobre a pressão arterial, reatividade vascular, viscosidade do sangue, concentração de hemoglobina, fatores de coagulação ou sensibilidade à insulina com o uso de testosterona em mulheres.

 

9. POSSÍVEIS EFEITOS NAS MAMAS

A terapia com androgênios não demonstrou ter efeitos adversos na saúde das mamas das mulheres. A densidade mamográfica não mostrou ser afetada pela adição de testosterona à terapia combinada com estrogênio. O estudo observacional Women’s Health Initiative (WHI) não encontrou associação entre terapia combinada de estrogênio com testosterona e aumento do risco de câncer de mama.

 

10. POSSÍVEIS EFEITOS NO ENDOMÉTRIO UTERINO

A maioria dos andrógenos pode ser aromatizada em estrogênios nos tecidos periféricos, o que teoricamente poderia contribuir para a hiperplasia endometrial. Algumas mulheres em uso de terapia androgênica podem apresentar alguma alteração no padrão do sangramento uterino. Entretanto, não há evidências de que o uso de terapia androgênica aumente o risco de hiperplasia endometrial ou câncer.

 

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